ALÍCIO RODRIGUES DIAS PEREIRA, o motorista da carreta do terror da zona oeste de SOROCABA

Morreu ontem a segunda vítima do motorista de carreta, Alício Rodrigo Dias Pereira, que numa sequência inusitada de ações no trânsito, típicas de filmes de aventura, deixou um rastro de destruição e mortes pelas ruas da Vila Nova Esperança e Jardim Simus, na terça-feira à noite. Num tempo médio de pouco mais de uma hora e meia, uma pessoa foi atropelada (a que faleceu ontem), outra foi prensada contra a parede de uma casa, e cinco veículos ficaram danificados, entre os quais uma viatura da Polícia Militar, que sofreu perda total. E no final da história, o acusado disse não se lembrar dos acidentes com vítimas, e que só fugiu por medo de se envolver em ocorrência policial por ter atingido um muro quando se aproximava de uma “biqueira” (ponto de venda de drogas). 

Uma das vítimas fatais, Emerson da Silva Lima, de 32 anos, pagou com a vida por querer deter o carreteiro, que o prensou contra a parede. Ele é quem informou a Polícia Militar sobre o atropelamento de Joe César Bueno da Silva, de 44 anos, quando dormia sobre uma calçada, e passou todo o itinerário do motorista alucinado. Porém, ainda nessa ocorrência, considerada surreal pelos atos inesperados, um sargento da PM feriu a si próprio com um tiro de metralhadora numa das pernas. Ele passa bem.

A ocorrência, iniciada por volta das 22h30, e que teve sequência até a madrugada para levantamento de todos os fatos, teve como ponto de partida o momento em que Alício deixou sua casa no bairro Itapeva, em Votorantim, para vir até Sorocaba comprar entorpecente. Em seu depoimento, prestado ao delegado plantonista Paulo Melero, Alício disse ter entrado no Nova Esperança e feito uma manobra para então parar na “biqueira” na avenida 9 de Julho, batendo com a carreta Fiat Iveco no muro de uma casa.

Naquele momento ele observou o condutor de um Gol, depois identificado como sendo Emerson da Silva Lima, demonstrando irritação. E por pensar que o descontentamento seria por causa do muro danificado, Alício teve medo de se envolver em ocorrência policial e resolveu abandonar o local, sem comprar cocaína. Ainda segundo ele, Emerson estava acompanhado de outra pessoa no carro.
O que o carreteiro não sabia era que Emerson havia presenciado o atropelamento de Joe César na calçada da avenida 9 de Julho, em frente ao numeral 2.170, e que indignado pelo fato do acusado nem parar, passou a acompanhá-lo, avisando simultaneamente a PM sobre seu trajeto.

O acompanhamento prosseguiu até a alameda das Dálias, no Jardim Simus, onde após uma conversão à direita, a carreta acessou a Viela das Rosas, se chocando contra o muro da casa de número 19, atingindo o Gol pertencente ao morador, o vigilante Luciano Nunes de Almeida, de 35 anos. A carreta ficou enroscada no muro atingido, e enquanto Emerson estacionava seu carro na Alameda das Dálias e se aproximava da carreta a fim de deter o motorista, os soldados Malheiros e César, da 1ª Companhia, também chegavam ao local mediante as coordenadas passadas por Emerson pelo telefone 190. Entretanto, a fim de cercar o carreteiro, os PMs deram a volta e pararam a viatura do outro lado da Viela das Rosas.

Os soldados tentavam convencer Alício a se entregar, mas ele, pressionado por Emerson, que subiu no estribo para tentar desligar o veículo e ainda abrir a porta para retirá-lo do seu interior, não desistiu de querer fugir e, depois de pelo menos meia dúzia de manobras de frente e ré, conseguiu desenroscar a carreta. Na fuga, acabou prensando Emerson contra a parede de outra casa e em seguida passou em cima da viatura da PM, causando-lhe perda total.

Com o impacto da batida, a viatura foi projetada para o muro da casa de número 16 e depois atingiu o Gol pertencente ao pedreiro Antonio Luiz Rosa, de 58 anos, morador na casa de número 11. Seu carro, além de colidir com o muro da própria casa do pedreiro, foi arremessado para o quintal de uma casa vizinha, batendo ainda no Astra pertencente ao carpinteiro Valdecir Ribeiro dos Passos, de 41 anos, que estava estacionado em frente à casa de número 7. Uma viatura do Corpo de Bombeiros, comandada pelo sargento Petti, foi chamada para socorrer Emerson, cujo óbito foi confirmado às 22h41 pelo médico João Toledo, do Samu.

Na sequência, após circular por diversas vias que nem conhece, e ter trafegado até mesmo na contramão em alguns trechos da avenida Américo Figueiredo e ter batido em dois postes, sabendo ter derrubado pelo menos um, Alício chegou até o Wanel Ville 5. Ele abandonou a carreta na rua Gonzaga do Nascimento, próximo a uma horta comunitária, e fugiu para a rua Nelson Juliano, onde foi detido escondido atrás de um barraco. Sua prisão foi feita pela equipe do sargento Teixeira, também da 1ª Companhia, que acabou ferindo a si mesmo com um tiro de metralhadora ponto 30, disparada acidentalmente no fêmur de sua perna esquerda. O policial foi operado no Hospital Regional, onde permanece em observação, e passa bem.

Em seu interrogatório, Alício disse que enquanto Emerson tentava retirá-lo da carreta, que outra pessoa jogava pedras em direção ao veículo, e que ao mesmo tempo os PMs se posicionavam com arma apontada em sua direção e pediam para descer da carreta. Ele disse ainda não se lembrar de atropelar ninguém na avenida 9 de Julho, e não fez nenhuma menção quanto ao fato de prensar Emerson contra a parede. Ele, porém, admitiu ter feito uso de cocaína na tarde do dia dos fatos, e que todos os crimes foram cometidos “em razão do medo, pois nunca teve nenhum envolvimento policial, bem como ao uso de entorpecente”, sendo que no período da tarde do mesmo dia, havia feito uso de cocaína.

Alício encerrou o interrogatório dizendo ter uma pequena lesão no nariz em decorrência de socos e chutes que teriam sido desferidos por policiais militares no momento de sua captura. Ele foi submetido a exame toxicológico, que deve ficar pronto em até um mês, e segundo o delegado Fábio Laíno Cafisso, assistente da Delegacia Seccional de Sorocaba, o acusado responderá por duplo homicídio doloso, fuga de local de acidente consumado, por trafegar em alta velocidade e por danos qualificados. Alício, que não tinha antecedente criminal, foi recolhido no Centro de Detenção Provisória (CDP), no bairro Aparecidinha.

Revolta

A dona de casa Solange Bueno da Silva, irmã de Joe César, que morreu às 9h de ontem no Hospital Regional, em decorrência do traumatismo craniano pelo atropelamento sofrido, disse que toda a família está revoltada, e que espera que o acusado seja punido.
Foi ela quem contou que o irmão, alcoólatra, dormia na calçada quando foi atropelado pela carreta. Solange, que residia com a vítima em outro bairro, contou que o irmão estava perto da casa de outros irmãos quando o acidente aconteceu. 

A dona de casa contou ainda que Joe César passou a beber a partir dos 30 anos de idade, após sofrer um problema de saúde que o deixou com as pernas travadas. A partir da deficiência física (ele andava apenas com auxílio de bengala), ele teria se entregado à bebida, e nos últimos meses estava cada vez mais triste e deprimido.
A outra vítima, Emerson da Silva Lima, não conhecia Joe. Emerson era casado, deixou esposa e três filhos.

 
 
População questiona atitude da polícia
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A sequência de atos desastrosos semelhantes a cenas cinematográficas, e que ontem era o assunto na cidade tamanha à gravidade dos fatos, repercutiu também sobre a intervenção policial, com algumas pessoas defendendo que o motorista Alício Rodrigo Dias Pereira, 30 anos, deveria ter sido imobilizado por disparo de arma de fogo. Entretanto, de acordo com o subcomandante interino do 7º Batalhão da Polícia Militar do Interior (7º BPM/I), major Carlos Alexandre de Mello, a orientação é a de evitar o emprego de armas, mas que a avaliação sobre a necessidade ou não desse dispositivo compete apenas aos policiais envolvidos na ocorrência.
De acordo com o oficial, “somente o policial envolvido na ocorrência é que pode avaliar se precisa ou não imobilizar o autor com emprego de arma de fogo, mas em primeiro lugar tentamos sempre conter a crise no ambiente”. Nesse caso específico, o major explicou que até Alício chegar na alameda das Rosas, onde se deu a primeira morte e os danos nos veículos e em algumas casas, os policiais não tinham informações seguras quanto ao atropelamento da primeira vítima, e até então o resultado da imprudência no trânsito seria limitado a danos materiais.
O comandante também disse que ninguém poderia imaginar que o rapaz Emerson, que auxiliou a polícia com informações sobre o roteiro do motorista, seria prensado contra a parede. Major Mello também aproveitou para elogiar a iniciativa de Emerson, mas salientou que ele não deveria ter tentado deter pessoalmente o acusado, cuja tarefa seria exclusivamente dos policiais, que são treinados para isso. O subcomandante do 7º Batalhão também destacou que a imagem de ver alguém sendo morto de forma tão brutal (se referindo a Emerson), acompanhará os policiais para o resto da vida. (A.M) 
 
 
( não da pra entender o pq de não terem atirado nos pneus da carreta, logo no começo da tragédia.)
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